08/11/2017

Cientistas encontram 'espaço vazio' secreto na Grande Pirâmide de Gizé


Pesquisadores japoneses e franceses que participaram do estudo consideram que essa é a maior descoberta sobre a pirâmide das últimas décadas.

Apesar de existirem há mais de 4 mil anos, as pirâmides egípcias não param de nos surpreender. Considerada a mais monumental das construções, a Grande Pirâmide de Gizé reservou um segredinho para os arqueólogos que a estudam há séculos: um artigo de cientistas japoneses e franceses publicado no periódico científico Nature revela que a pirâmide possui um espaço vazio em seu interior de pelo menos 30 metros de comprimento e nunca antes localizado.

Para chegar à essa conclusão, os pesquisadores recorreram a técnicas da física moderna. Ao vasculhar a pirâmide, os cientistas irradiaram raios cósmicos no local e avaliaram a densidade do interior da construção, projetando o tamanho dos espaços preenchidos e vazios — a técnica é chamada de muografia, nome derivado das partículas subatômicas conhecidas como "muons" e que interagem com a matéria.


Apesar de localizarem o espaço vazio, os cientistas ainda não conseguem determinar a disposição do local nem se há possibilidade de encontrar galerias escondidas. Para obter mais informações sobre a descoberta, eles pretendem explorar o interior da Grande Pirâmide de Gizé com um pequeno robô capaz de voar e capturar imagens.

Também chamada de Pirâmide de Quéops, a Grande Pirâmide faz parte da Necrópole de Gizé e é considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Com mais de 146 metros de altura, supera as pirâmides de Quéfren e Miquerinos, que fazem parte do complexo — a Esfinge, de mais de 70 metros de comprimento e 19 metros de altura, também está localizada na região.

Construída com milhões de blocos de pedra, a Grande Pirâmide de Gizé tem em seu interior diferentes câmaras e galerias. O local guardava o corpo do faraó Quéops, que reinou no Egito Antigo há mais de 4,5 mil anos. A estrutura imponente era ainda mais impressionante quando foi construída: a pirâmide era revestida com enormes blocos manualmente polidos de pedra calcária, que refletiam a luz do sol.

Compartimentos

O time de pesquisa da ScanPyramids está tomando cuidado para não descrever a cavidade como uma "câmara".

Segundo especialistas, o monumento contém compartimentos que foram incorporados pelos construtores para evitar um desmoronamento, aliviando um pouco da tensão gerada pelo peso de diversas câmaras de pedra.

Há cinco espaços do tipo acima da Alta Câmara do Rei, por exemplo.

O arqueólogo americano Mark Lehner está em um grupo de cientistas que analisa o trabalho da ScanPyramids. Ele diz que a tecnologia utilizada é confiável, mas que ainda não está convencido de que a descoberta tem grande significância.

"Pode ser um tipo de espaço que os construtores deixaram para proteger o teto estreito da galeria do peso da pirâmide", disse ele ao programa Science in Action (Ciência em Ação), da BBC.

"No momento é uma anomalia. Mas precisamos nos debruçar sobre isso, especialmente em uma época em que não podemos mais abrir caminho à força com explosões, como fez o egiptólogo britânico Howard Vyse nos anos 1800."

Um dos líderes do time, Hany Helal, da Universidade do Cairo, acredita que o espaço vazio é muito grande para ser apenas um alívio estrutural, mas diz que especialistas podem debater melhor o assunto.

"O que estamos fazendo é tentar entender a estrutura interna das construções e como essa pirâmide específica foi construída", afirma.

"Egiptólogos famosos, arqueólogos e arquitetos têm algumas hipóteses. E que fazemos é fornecer dados."

Raios cósmicos

Boa parte da incerteza vem da imprecisão dos dados obtidos via muografia.

Essa técnica não invasiva tem sido desenvolvida ao longo dos últimos 50 anos para analisar o interior de vulcões e geleiras - chegou a ser usada para investigar os reatores nucleares danificados em Fukushima, por exemplo.

Esse tipo de scan usa partículas altamente energizadas que caem do espaço. Quando raios cósmicos super-rápidos colidem com moléculas de ar, eles produzem partículas derivadas, incluindo os chamados "muons".

Os muons também se movem com velocidade próxima à da luz e interagem muito pouco com a matéria. Logo, quando atingem a superfície da Terra, penetram bem fundo nas rochas. Alguns deles, no entanto, são refletidos pelos átomos existentes nos minerais que compõem as pedras. Se detectores de muons forem colocados em áreas de interesse, é possível então obter um registro da densidade e perceber anomalias.
Especialistas debatem o significado da descoberta | Foto: ScanPyramids/Divulgação
O time da ScanPyramids usou três tecnologias de muografia diferentes e todas indicam presença do espaço na mesma posição e no mesmo tamanho.

Sébastien Procureur, especialista da Universidade de Paris-Saclay, destaca que a muografia só detecta grandes espaços, e que o time não estava apenas obtendo simples porosidade dentro do monumento.

"Com muons você mede a densidade integrada", ele explica. "Se há buracos por toda parte, a densidade geral será a mesma, mais ou menos, em todas as direções, porque a reflexão de partículas será média. Mas se você tem excesso de muons, significa que há um espaço maior - o que não acontece em uma estrutura que se assemelhe a um queijo suíço."

A questão que surge agora é como aprofundar as investigações.

Jean-Baptiste Mouret, do Inria, um instituto nacional francês para ciência computacional e matemática aplicada, diz que o time teve uma ideia de como fazer a pesquisa, mas primeiro as autoridades egípcias precisam aprová-la.

"A ideia é fazer um furo minúsculo para explorar monumentos como esse. O objetivo é introduzir um robô que consiga passar por um buraco de 3 cm de diâmetro. Estamos trabalhando com pequenas máquinas capazes de voar", disse ele.

A pesquisa da Grande Pirâmide de Gizé por meio da muografia foi publicada na edição desta semana da revista científica Nature.

Fontes: Galileu e BBC

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