10/12/2014

A cidade perdida de Caral


Saudações amigos e amigas. Tenho a alegria de trazer para vocês mais uma matéria que me foi indicada pelo nosso grande amigo Elson Antonio Gomes, que além de indicar o tema nos forneceu um importante material de pesquisa. Hoje falaremos da cidade sagrada de Caral, que é reconhecida como a mais antiga cidade da América, e que mudou conceitos a respeito das motivações que levaram os seres humanos a se organizarem em civilizações.

Muitas vezes eu recebi algumas críticas por postar textos sobre arqueologia aqui no blog, pois segundo elas um blog de terror não poderia abrir espaço a esse tipo de material, mas a Cidade tema da postagem de hoje exemplifica muito bem o porquê do meu fascínio com relação a esse assunto. Caral é uma dessas gratas descobertas arqueológicas capazes de mudar as teorias a respeito da evolução humana e dos sistemas sociais. Essa inesperada cidade prova que ainda há muito o que descobrir, e isso incendeia minha imaginação.

Em 2001 Caral foi reconhecida oficialmente como a cidade mais antiga das Américas. Data de 2600 anos antes de Cristo, a civilização que floresceu em Caral é aproximadamente 1000 anos mais nova que a Suméria (reconhecida atualmente como a primeira civilização), e 2000 anos mais antiga que as civilizações Mesoamericanas e Olmecas. As pirâmides encontradas em Caral são 100 anos mais antigas que as pirâmides egípcias conhecidas, o que dá uma ideia da grandeza dessa civilização que foi a primeira no nosso continente e que guardas muitos mistérios.

A Civilização de Caral (também Caral-Supe ou Norte Chico) foi uma sociedade complexa pré-colombiana, que incluiu cerca de 30 grandes centros populacionais, nos quais são hoje a região centro-norte da costa do Peru. É conhecida, desde 1997, é um dos seis locais onde a civilização separadamente originou no mundo antigo. Esses seis locais são apontados como: Mesopotâmia, Egito, China, Índia, Peru e América Central. Esses locais são tão importantes pois neles floresceram civilizações milhares de anos atrás, sem que esses povos tivessem tido contato uns com os outros, sendo que eles são palco de um importante estudo, como veremos mais a seguir.


Na nomenclatura arqueológica, Norte Chico é una cultura pré-cerâmica do período pré-colombiano que apresenta uma ausência total de cerâmica e aparentemente carece de expressões artísticas. A realização mais impressionante da civilização foi sua arquitetura monumental, que incluía plataformas monticulares e circulares. A evidência arqueológica sugere o uso de tecnologia têxtil, e possivelmente adoração de símbolos representando a deuses, situações que concorrem nas culturas andinas pré-colombianas. Se assume que se requeria um governo sofisticado para liderar a antiga região de Norte Chico, e permanecem sem resposta as perguntas sobre sua organização, particularmente o tema dos recursos alimentícios e a função política.

Descoberta de Caral

Descobertas em 1905, as ruínas foram rapidamente esquecidas posto que não estavam supridas de ouro e cerâmicas.

A primeiro pessoa que chamou a atenção sobre a Cidade Sagrada de Caral (Chupacigarro Grande) foi o viajante americano Paul Kosok, que visitou o lugar juntamente com o arqueólogo também americano Richard Schaedel em 1949. No seu relatório, publicado no livro "Life, Land and Water in Ancient Peru", em 1965, mencionou que Chupacigarro (como era conhecida a Cidade Sagrada de Caral então) devia ser muito antigo, mas não pode demonstrar quanto.


Em 1975 o arquiteto peruano Carlos Williams fez um registro da maioria dos lugares arqueológicos no vale de Soube, entre os quais registrou o Chupacigarro Grande, a partir do qual fez algumas observações sobre o desenvolvimento da arquitetura nos Andes, que apresentou primeiro no artigo "Arquitetura e Urbanismo no Antigo Peru", publicado em 1983.

O arqueólogo francês Frederic Engel visitou o lugar em 1979, levantando um plano e escavando no mesmo. No seu livro "Das Begónias ao Milho", publicado em 1987, Engel afirmou que Chupacigarro Grande (como ainda era conhecida a Cidade Sagrada de Caral) pôde ter sido construído antes do aparecimento da cerâmica nos Andes (1800 aC). No entanto, os arqueólogos andinos assumiram que o local era "acerâmico", isto é, que tinha sido construído por uma população que não utilizava a cerâmica, ainda que esta já se conhecia noutros lugares dos Andes.



Em 1994 Ruth Shady percorreu novamente o vale de Supe e identificou 18 lugares com as mesmas características arquitetônicas, entre os quais se encontravam os 4 conhecidos como Chupacigarro Grande, Chupacigarro Chico, Chupacigarro Centro e Chupacigarro Oeste. Para diferenciá-los Shady denominou-os, Caral, Chupacigarro, Miraya e Lurihuasi. Caral, Miraya e Lurihuasi são os nomes na língua quéchua (língua dos antigos povos peruanos, inclusive os Incas falavam esse idioma) dos povoados mais próximos aos lugares.

Ruth Shady
Shady escavou em Caral a partir de 1996 e apresentou os seus dados pela primeira vez em 1997, no livro "A Cidade Sagrada de Caral-Supe nos alvores da civilização no Peru". Nesse livro sustentou abertamente a antiguidade pré-cerâmica da Cidade Sagrada de Caral, afirmação que consolidou de maneira irrefutável nos anos seguintes, através de escavações intensivas no lugar.


Ruth Shady é um membro do Museu Arqueológico da Universidade Nacional de São Marcos, em Lima. Desde de 1996, ela tem cooperado com Jonathan Hass,do American Field Museum. Ela notou que certas "formações" eram "pirâmides"; antes, eram consideradas como morros naturais. Sua pesquisa anunciou a datação do carbono quatorze realizada em uma espécie de corda feita com junco transado, na revista Science em 27 de abril de 2001.

Caral é importante habitat de plantas domésticas, como algodão, feijão, abóbora e goiaba. A ausência de recursos cerâmicos faz com que essas comidas não fossem cozinhadas ― entretanto, podem ser assadas. O Centro se entende por 150 acres e contém seis pedras plataformas tumulares - pirâmides. O morro maior mede de 154 por 138 metros, embora somente 20 metros aflorem à superfície, duas praças, ainda soterradas são e uma grande praça conecta todos os diferentes monumentos.

A "grande pirâmide do Peru" foi construída com uma escadaria que dá para um átrio, como plataforma, culminando numa residência com aposentos e uma pira cerimonial. Todas as pirâmides foram construídas em uma ou duas fases, o que significa que os monumentos foram planejados. O desenho da praça central é similar às estruturas encontradas nos Andes um milênio depois. Caral é, portanto, berço de nações posteriores.

Altar do fogo
Ao redor das pirâmides existem muitas estruturas residenciais. Em uma das casas foi encontrado o corpo de uma criança de 2 meses de idade que estava sepultado no chão. Estudos provaram que a criança faleceu de morte natural. Não há evidência de sacrifício humano em nenhuma parte da cidade. Como todos sabemos sacrifícios humanos eram extremamente comuns em outros povos americanos, como Maias, Astecas e Incas.


No meio dos artefatos foram encontradas trinta e duas flautas feitas de ossos de pelicano e de outros de animais, com entalhes representando figuras de pássaros e macacos. Isso mostra que, embora fixados ao longo da costa, os habitantes de Caral estavam familiarizados com animais da Amazônia.



Como a cultura começou? Antes de Caral, não existe nenhuma evidência exceto a existência de numerosas pequenas vilas. Sugere-se que elas se reuniram em 2.700 antes de Cristo, desenvolveram o cultivo agrícola e técnicas de pescaria.

Por uma razão desconhecida, Caral foi abandonada rapidamente depois de um período de 500 anos (2100 AC). Segundo a teoria mais aceita a população migrou devido a uma seca. Os habitantes foram forçados procurar terras férteis. As condições ásperas de vida não desapareceram: de acordo com World Monumento Fund. (WMF), Caral é um dos 100 lugares [sítios arqueológicos] em perigo do mundo, em risco de desaparecer ou ser completamente vandalizado.

“Atravessar a grande Divisão”

Uma das grandes indagações a ser respondida pelos historiadores e arqueológicos a respeito das primeiras civilizações é o motivo que levou os homens antigos a formarem grandes cidades, criando assim as primeiras civilizações.

Até o surgimento das primeiras civilizações o ser humano vivia em pequenos grupos familiares, ou em sistemas de pequenas aldeias. Em algum momento da história o ser humano passou a se organizar em grandes grupos, que se tornaram as cidades. Esse processo é chamado de “Atravessar a grande Divisão”.

Como foi citado acima, seis são os lugares no mundo onde esse processo pôde ser observado: Mesopotâmia, Egito, China, Índia, Peru e América Central. Mas os motivos que levaram os seres humanos a se organizarem dessa forma continuam sendo um mistério.

Os especialistas cogitam algumas hipóteses para essa organização. Eles citam a agricultura, o comércio e até mesmo influência alienígena para tal mudança de comportamento. Porém a teoria que ganhou mais espaço nos últimos anos afirma que o motivo pelo qual os seres humanos passaram a organizar grandes cidades foi a Guerra. A guerra seria o motivo pelo qual as pessoas teriam se unido a outras aldeias, e isso teria dado origem as primeiras cidades e as primeiras civilizações. Os principais expoentes dessa teoria são o casal de arqueólogos Jonathan Haas e Winifred Creamer, que a 20 anos estudam e confrontam a sua teoria com dados coletados em civilizações, ou cidades, pioneiras. Em todas elas eles encontraram relatos de batalhas e conflitos. Isso mostrava que os seres humanos poderiam ter começado a se reunir em grandes grupos sociais visando segurança contra povos hostis.

Jonathan Haas
Winifred Creamer

A descoberta de Caral foi mais uma oportunidade para o casal testar a sua teoria

Para comprovar sua teoria, eles precisavam procurar indícios de conflitos nas consideradas cidades mães, ou seja nas primeiras aglomerações humanas. Mas esse é um processo muito complicado principalmente no que diz respeito a localizar essas cidades no “Velho Mundo”, pois muitas das cidades modernas foram construídas sobre lugares onde antigamente eram as cidades mães. Por isso eles precisariam procurar as cidades mães de cara civilização na América. Assim eles chegaram ao Peru, onde inicialmente eles se concentraram na descoberta de uma gigantesca pirâmide no vale de Casma, no Peru. Casma teria sido construída a 1500 anos antes de Cristo segundo a datação por carbono 14 feita em madeiras encontradas nas ruínas. Em Casma Jonathan Haas e Winifred Creamer encontraram representações de guerra, o que dava respaldo a teoria de que a guerra era o motivo que fez com que os seres humanos passaram a se reunir em cidades. Mas pouco tempo depois as descobertas de Ruth Shady em Caral mostrariam que Casma não era a cidade mãe no Peru. Assim o casal de pesquisadores migrou para Caral, afim de continuar os seus estudos.

Essa "montanha" é a pirâmide de Casma
Imagem encontrada dentro da pirâmide mostrada acima
Em Caral não foi encontrado nenhum tipo de cerâmica, ferramenta de metal, nem mesmo arma destinada a guerra. Jonathan e Winifred não conseguiram encontrar nenhum tipo de muro, ou estrutura que mostrasse que Caral pudesse ter sido erguida para que o povo se defendesse de agressores. A teoria da motivação pela guerra começava a ruir. Mas se a guerra não foi a motivação para a construção de Caral, qual era essa motivação?

A mais antiga cidade da América nasceu em meio a Paz

A equipe de Ruth Shady continuava suas buscas e pesquisas, e assim descobriram que uma das principais fontes de alimento do povo local eram peixes. E para a surpresa geral esses peixes eram animais de água salgada como as sardinhas. Frutos amazônicos e até folhas de coca foram encontrados no local, a cidade até não se encontrava longe do mar, mas Caral estava longe da Amazônia e das montanhas que produziam folhas de Coca.

Jonathan e Winifred que continuavam suas pesquisas na região acabaram descobrindo que Caral foi um importante centro de agricultura, mesmo estando no meio a uma das regiões mais áridas da América do Sul. O povo de Caral usava a irrigação para produzir no território seco, e um dos produtos mais produzidos no local era o algodão.

Redes tecidas com algodão com quase 5 mil anos foram encontradas em pontos do território peruano, e o processo de tecelagem se assemelhava ao usado em Caral. Isso levou os estudiosos a afirmar que Caral foi criada como um centro comercial e agrícola. Caral produzia redes para os pescadores, que usavam o peixe seco como forma de pagamento.

Redes encontradas no litoral
Como Caral podia produzir alimentos as pessoas passaram a se agrupar em torno da cidade, que acabou se tornando um importante ponto comercial, visto que foram encontrados produtos que vinham de tão longe como o Equador, os Andes e claro, da floresta tropical a centenas de quilômetros de distância.


As duas imagens acima mostram "peças" de algodão encontradas em Caral
O novo modelo fez de Caral um polo atrativo de pessoas em busca de oportunidades gerando uma mão de obra excedente. Ao que parece essa mão de obra foi utilizada na obra religiosa: a construção de pirâmides. A descoberta de Caral suscita um enigma histórico: ao mesmo tempo, em dois diferentes continentes, aconteceu o "descobrimento da agricultura" e o incremento de atividade ligada à arquitetura e engenharia e, em ambos os casos, com a edificação de pirâmides.

Este tipo de "templo", "a pirâmide", encontra-se no Peru, Suméria, Egito, China etc., em todo terceiro milênio antes de Cristo. Coincidência, ou evidência de desígnio global? Pesquisas alternativas reabriram o debate, mas os arqueólogos não estão prontos para esclarecer isso. Caral é uma verdade difícil de explicar.

Representação de Caral
A cidade tinha uma população de aproximadamente de 3.000 pessoas. Mas havia dezessete outros sítios, permitindo, possivelmente, um total de 20.000 pessoas no vale Supe. Todos esses lugares no Vale Supe eram divididos similarmente como Caral. Eles tinham uma pequena plataforma ou círculos de pedra. Haas acredita que Caral era o centro da civilização, parte de um enorme complexo, com comunidades litorâneas e terras distantes da costa ― como a Amazônia, considerando as pinturas e entalhes encontrados.

Agradecimentos ao amigo Elson Antonio Gomes, por ter compartilhado esse texto com a gente.

Fontes: 
Documentário da BBC: "As pirâmides Perdidas de Caral"
Wikipédia
Diarc

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4 Comentários
Comentários
4 comentários:
  1. Uma pena o pessoal criticar o "Adm' por ele postar coisas sobre arqueologia. O blog se chama "Noite Sinistra" e arqueologia tem seu lado 'sinistro'. Pq no Egito pode ter teorias que as piramides foram feitas por extras terrestres, suas tumbas são amaldiçoadas e outras coisas 'sinistras'.

    Agora em nosso continente é achado uma cidade com piramides que tem praticamente a mesma idade das piramides do Egito e não há nada de 'sinistro'. No Egito foram os extra terrestres, e aqui no terceiro mundo como gostam de nos tratar foram os seres humanos.

    Sendo assim, nós considerados do terceiro mundo somos tão capazes quanto os extra terrestres com suas tecnologias avançadas.

    Peço desculpas a todos, mas juro que não consigo entender a mente de vcs que criticam postagem de arqueologia aqui neste blog.

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    1. Pois é manolo...criticas sempre acontecem, algumas são no intuito de fazer o blog melhorar, outras são apenas para encher o saco mesmo.

      Eu gosto de arqueologia...assim como astronomia...nem sempre as postagens com esses temas abordam alguma relação a um mistério, ou em relação a ufologia, mas mesmo assim eu gosto do assunto e sinto grande prazer em colocar esses materiais no blog. Já fiz muitas postagens da TAG Curiosidades que também não tem nada haver com terror, ou com o mundo bizarro. Eu acho isso importante as vezes, pois isso quebra um pouco o clima pesado que algumas postagens criam.

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  2. Cara, legal esse post. Esse tipo de pesquisa arqueológica é uma das áreas mais interessantes (na minha opinião) para se obter conhecimento. Não sei se já há um post aqui sobre isso (é a primeira vez que entro no blog), mas recomendo a leitura do livro A História Secreta da Raça Humana, dos autores Michael Cremo e Richard Thompson. É interessante ver como a raça humana é muito mais antiga do que se imagina. A cidade de Caral é só mais um exemplo de uma situação muito grande de desconhecimento sobre o passado da humanidade.

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    1. Vou dar uma conferida nesse assunto abordado no livro amigo Danilo. Eu tb adoro arqueologia e história, afinal as duas andam de mãos dadas. Costumo pensar que a arqueologia tem a função de lapidar a história, e as vezes desmentir aqui que acreditamos ser um fato consumado...o problema é que para desmentir algo que todos creem ser verdade nem sempre é uma tarefa fácil...

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