17/04/2017

Mary Toft: A mulher que fez a Inglaterra acreditar que havia dado à luz 18 coelhos


No início do século 18 na Inglaterra, correu a bizarra notícia de que uma mulher dava à luz coelhos. O assunto chocou a sociedade da época.

"Desde que escrevi pela última vez, a pobre mulher deu à luz três novos coelhos, todos eles mal-formados. O último durou 23 horas dentro do útero antes de morrer. Se você conhece alguma pessoa curiosa que queira ver isso com seus próprios olhos, parece que ela (a mulher) tem outro coelho em seu útero. Não sabemos quanto mais há lá dentro".

Esse foi o texto da carta escrita por John Howard, um cirurgião de Guilford, na Inglaterra, a Nathaniel St. Andre, médico da corte do rei George 1º, em 1726. A pobre mulher era Mary Toft, de 23 anos.

Diante da curiosíssima história, St. Andre não hesitou em ir examiná-la.

"Em 23 de abril, enquanto urinava em um campo, ela viu um coelho perto dela. Por isso, ficou fixada nesses bichos", reportou o médico real.

"Desde então, sente um desejo constante de comer coelhos, mas é pobre".

Toft estava grávida quando viu o coelho e, aparentemente, teve um aborto espontâneo pouco depois.

Mãe de coelhos

"Hoje, parece algo descabido, mas temos que entender que naquela época existiam muitas dúvidas sobre a concepção. Havia gente estudada que acreditava que mulheres podiam afetar o desenvolvimento dos ossos do bebê apenas com a força do pensamento", explica Karen Harvey, professora da Universidade de Sheffield e autora de um livro sobre Mary Toft que será publicado nos próximos meses.

Foi depois de perder o bebê que Mary começou a dizer que estava dando à luz partes de coelhos. No entanto, eles saíam mortos de seu ventre, e nunca inteiros. Eles também pareciam estar saltando em sua barriga, segundo o depoimento de outro médico que a examinou, Richard Manningham.


"Definitivamente havia movimento em uma parte do lado direito de seu estômago", escreveu.

Os médicos pareciam acreditar nessa versão. O próprio St. Andre disse ter visto "nascer o 15º coelho", mas outro médico real, Cyriacus Ahlers, não estava muito convencido.

"Fiz algumas perguntas à paciente que ela não foi capaz de responder. Observei-a com atenção, pois ela caminhava pela casa com os joelhos juntos, como se tivesse medo de que algo caísse".

Ahlers também testemunhou um "nascimento".

"Tinha sérias suspeitas, mas simulei grande compaixão e ajudei a cuidar da mulher, o que me deu a oportunidade de conversar com o médico sobre tudo pelo que ela tinha passado. Disse que o rei lhe daria uma pensão..."

Segundo alguns historiadores, o dinheiro era a motivação de Toft.

O princípio do fim

Mas a verdade começou a vir à tona quando Ahlers examinou os restos mortais dos coelhos "nascidos" e encontrou detalhes suspeitos: havia pelotas em seus estômagos, o que indicava que tinham comido feno, e alguns de seus membros pareciam ter sido cortados com facas.

"Tecnicamente, Mary Toft deu à luz coelhos. Durante meses, partes dissecadas eram introduzidas em seu corpo e ela as expeliu horas depois. Era um processo incômodo e muito realista".

Toft foi levada a Londres, onde esperou o nascimento de seu "18º coelho". O caso já tinha ganhado destaque na imprensa, não apenas positivamente: o satirista William Hogarth fez uma caricatura ironizando a situação.

"Foi incrível que tenham seguido com a fraude em Londres, observados de tão perto. Era óbvio que seriam desmascarados", conta Harvey.


A história começou a mudar quando um dos empregados da casa em que Toft estava hospedada relatou que ela havia pedido que ele lhe trouxesse o "menor coelho que encontrasse".

Richard Manningham, um dos médicos que a tinham examinado antes, foi uma das vozes mais indignadas com as novas revelações.

"Insisti que confessasse a verdade. Disse-lhe que era uma impostora e que por isso faria um experimento bastante doloroso", escreveu.

Foi quando a mulher confessou em uma série de depoimentos cheios de contradições.

Toft foi presa, mas como simulação de gravidez não era crime, foi solta logo depois. Morreu em 1763, anos depois, e nunca se livrou da má fama: em seu atestado de óbito, ela consta como "Mary Toft, viúva e impostora dos coelhos".

O caso teve grande repercussão no meio médico britânico, que se viu alvo de zombaria pública. Foi citado até por filósofos: Voltaire, no ensaio Singularidades da Natureza, mencionou a história de Mary Toft para criticar a Inglaterra pelo que classificou como influência da ignorância da religião.

Fonte: BBC

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